17 de setembro de 2008

Correio da Manhã: Protagonista fundamental para o fim do Estado Novo.

O jornal carioca Correio da Manhã, fundado por Edmundo Bittencourt em 1901, sempre causou polêmica no cenário nacional. Com importante repercussão e um vasto número de leitores, podia provocar intensa mobilização social e estava constantemente envolto em grandes causas. É caracterizado pela sua independência ideológica contra os regimes políticos: como em 1924, no episódio da prisão de seu fundador pelo então presidente Arthur Bernardes, que fechou o jornal durante quase um ano; e pelo apoio a Coluna Prestes, batizando Luís Carlos Prestes de “Cavaleiro da esperança”. Dessa maneira, o jornal não poderia ter ficado de fora da Revolução de 30, a qual deu total apoio.
Entretanto, o Correio da Manhã logo passou a combater Getúlio, numa oposição que atravessou o Estado Novo (1937-1945). O jornal foi decisivo para o fim desse período, publicando em fevereiro de 1945 a primeira matéria a não ser submetida à censura prévia das autoridades: a bombástica entrevista do escritor José Américo ao jornalista Carlos Lacerda, criticando a ditadura de Getúlio e sugerindo que houvesse uma eleição presidencial, à qual Vargas não poderia se candidatar. No dia seguinte ao episódio, todos os outros jornais brasileiros passaram a desobedecer à censura, publicando conteúdos que iam contra o regime Vargas. Tal acontecimento e o fim da Segunda Guerra Mundial mobilizaram o contexto que colocou fim ao Estado Novo no Brasil.
Segue no link a entrevista de José Américo ao Correio da Manhã na íntegra:
http://www.franklinmartins.com.br/estacao_historia_artigo.php?titulo=a-entrevista-que-acabou-com-a-censura-a-imprensa-1945

Mas nem tudo são flores....

Licurgo Ramos da Costa, jornalista que trabalhou no DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) de 1939 a 1942, denunciou o Correio da Manhã de receber mensalmente verbas secretas do governo Vargas para publicar publicidade de cunho nacionalista.
O jornal, que passava por dificuldades, aceitava publicar anúncios somente da Caixa Econômica Federal e de órgãos da administração federal, além de editais e mensagens oficiais. Licurgo comprovou todas as suas denúncias com os recibos de pagamento, que estavam assinados e somavam o montante de 30 mil dólares.
A corrupção obscura de um jornal de história tão heróica nas revoluções nacionais causa um efeito decepcionante, e não há como negar: embora na época todos os meios de comunicação estivessem sobre o crivo da censura e da repressão, o dossiê feito sobre o caso mostra que o jornal não foi obrigado a aceitar o suborno e assim difundir a ideologia nacionalista, e sim pressionado. Lê-se isso no trecho do texto científico “Clientelismo, corrupção e publicidade - como sobreviviam as empresas jornalísticas no Rio de Janeiro dos anos 1950?” de Ana Paula Goulart Ribeiro:


“A distribuição da publicidade oficial era, obviamente, feita a partir de um critério político. Segundo Lacerda, Lourival Fontes teria entregado a Caio Miranda uma lista tríplice esclarecendo a lógica de funcionamento. A primeira lista continha o nome dos jornais que obrigatoriamente deviam receber a publicidade dos institutos: A Manhã, A Noite, Última Hora, O Radical, Voz Trabalhista, Diário Popular e Diário Trabalhista. A segunda lista continha os nomes dos periódicos a quem as verbas deveriam ser distribuídas conforme a sua atitude para com o governo: Jornal do Commercio, Correio da Manhã, O Jornal, Diário da Noite, O Globo e outros. E, finalmente, na terceira, os jornais que não deveriam receber publicidade de forma alguma: Tribuna da Imprensa, Diário de Notícias, Diário Carioca e Imprensa Popular.”


Dessa maneira, observa-se como o jornalismo, no século XX, tornou-se uma empresa essencialmente capitalista; e como Getúlio Vargas soube fazer uso disso pra manter-se no poder, através da propagação do populismo e nacionalismo exacerbado, típicos de seu governo manipulador. Ninguém escapou impune ao militar, nem mesmo os mais corajosos e transparentes, como o Correio da Manhã.


Extinção

O Correio da Manhã deixou de circular em 1974, mas pode-se datar sua morte de alguns anos antes: a noite de 13 de dezembro de 1968, quando, mal terminara a comunicação do AI-5 ao País pela televisão, agentes do Dops (Delegacia de Ordem Política e Social) atravessaram a rua e invadiram a sede do jornal, causando sua destruição através de uma explosão. O jornal também já enfrentava muitas dificuldades financeiras.
Thayla Ramos

Nenhum comentário: