17 de setembro de 2008

Introdução

O período de 1937 a 1945 que compreende o Estado Novo, é extremamente delicado para a imprensa brasileira. Primeiro devido à constituição de 1937, que colocava a imprensa como sendo um órgão de utilidade pública. Dessa forma todos os jornais eram obrigados a publicar comunicados do governo, sendo passível de punição o diretor do jornal caso houvesse o não cumprimento dessa exigência. .Esse controle era feito pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, criado por decreto presidencial em dezembro de 1939), que além disso contava com um registro dos jornais e também dos jornalistas. A partir de 1940, ficou obrigatório um registro anual para importação de papel de imprensa, medida que teve como resultado o fechamento de vários jornais. Mesmo com tantas adversidades, existiu nessa época uma imprensa clandestina. Podendo ser citados como exemplo: o tablóide carioca “Liberdade”, e os paulistas “Folha Dourada” e “Resistência”, orientados por professores e estudantes da USP.
O Estado Novo também possuía um órgão de imprensa oficial, era o jornal “A Manhã”, que tinha como objetivo divulgar as diretrizes propostas pelo regime junto a um público o mais diversificado possível.
Devido a forte censura sofrida pela imprensa, ela é considerada uma das responsáveis, pela derrubada do regime, e renúncia de Getulio Vargas, em 1945.

Diego Ramon

A PASSAGEM DO JORNALISTA JOEL SILVEIRA PELO ESTADO NOVO E SUAS EXPERIENCIAS


Entrevista cedida ao jornalista Gilberto Negreiros para o site almanaque Folha hospedado no provedor UOL.
Essa entrevista faz parte de uma série intitulada “ Jornalistas contam a história”

São Paulo, terça-feira, 9 de janeiro de 1979

O golpe do Estado Novo antes de tudo foi um atentado ao livre arbítrio da imprensa nacional. E embasados no testemunho profissional de Joel Silveira, jornalista desde os 18 anos e ingressando com a mesma idade no Estado do Rio de Janeiro e também na imprensa carioca, tentaremos descobrir e compreender os efeitos desse tempo tão lembrado nos dias de hoje pelos profissionais da notícia. Ele e mais um grupo de jornalistas da mesma época viveram intensamente os sintomas que o chamado Estado Novo obteve sob o controle de notícias e, paradoxalmente obtiveram notoriedade com seus trabalhos no período conhecido como a Grande reportagem dos anos 40.
Mas, foi no jornal o Diário da Noite que ele conquistou sua fama por fazer uma reportagem especial que agradara muito o então presidente do nosso país Getúlio Vargas. A série de nome “Grã finos em São Paulo”, na verdade tratava-se de uma sátira onde ele, um sergipano rude e de sotaque forte narrava suas aventuras pelos salões da burguesia carioca disfarçado de "gentleman". Segundo o próprio Joel Silveira o então presidente que possuía um descarado desprezo por essa burguesia deliciava-se com suas aventuras.
Conta-nos o jornalista que o controle da Imprensa durante esses anos foi colocado em mãos de um fascista assumido chamado Lourival Fontes, nesse momento a grande imprensa aderiu ao Estado Novo e a seu controle com exceção de O Estado de São Paulo, outros jornais que tentaram protestar contra o novo regime foram fechados ou empastelados, termo usado na época para descrever a situação onde a redação de um jornal era invadida e tinha seus materiais e equipamentos destruídos
Conta também em seu depoimento como era a rotina nos tempos da censura “lá pelas nove e meia dez horas, um telefonema com aquela vozinha: "Silveira, olha aqui, está falando fulano (geralmente dava só o primeiro nome), não pode sair aquilo, evite comentários..."
Quando perguntado se as ordens eram acatadas ele responde que sim, se não eram o resultado era o fechamento.
Nessa época o mercado de trabalho ficou escasso pois as noticias vinham prontas da Agencia Nacional, tudo vinha mastigado contendo inclusive e que página determinada matéria deveria ficar.
Mas há também o lado obscuro dos jornalistas da época, onde eles eram isentos de impostos e os donos dos jornais não pagavam pelo papel, mas esse é o lado corrupto da censura e denuncia:
JOEL SILVEIRA: O Conselho Nacional da imprensa tinha apenas um nome: Roberto Marinho.
Como Joel vê a imprensa hoje?
“Está muito bom. Eu estou achando formidável. Não tem dúvida, está perfeito, porque é toda. Quem é que não está contra? Mas a imprensa tem que ter inteligência, a imprensa não vai ficar contra os leitores.”
Cintia Renata



Correio da Manhã: Protagonista fundamental para o fim do Estado Novo.

O jornal carioca Correio da Manhã, fundado por Edmundo Bittencourt em 1901, sempre causou polêmica no cenário nacional. Com importante repercussão e um vasto número de leitores, podia provocar intensa mobilização social e estava constantemente envolto em grandes causas. É caracterizado pela sua independência ideológica contra os regimes políticos: como em 1924, no episódio da prisão de seu fundador pelo então presidente Arthur Bernardes, que fechou o jornal durante quase um ano; e pelo apoio a Coluna Prestes, batizando Luís Carlos Prestes de “Cavaleiro da esperança”. Dessa maneira, o jornal não poderia ter ficado de fora da Revolução de 30, a qual deu total apoio.
Entretanto, o Correio da Manhã logo passou a combater Getúlio, numa oposição que atravessou o Estado Novo (1937-1945). O jornal foi decisivo para o fim desse período, publicando em fevereiro de 1945 a primeira matéria a não ser submetida à censura prévia das autoridades: a bombástica entrevista do escritor José Américo ao jornalista Carlos Lacerda, criticando a ditadura de Getúlio e sugerindo que houvesse uma eleição presidencial, à qual Vargas não poderia se candidatar. No dia seguinte ao episódio, todos os outros jornais brasileiros passaram a desobedecer à censura, publicando conteúdos que iam contra o regime Vargas. Tal acontecimento e o fim da Segunda Guerra Mundial mobilizaram o contexto que colocou fim ao Estado Novo no Brasil.
Segue no link a entrevista de José Américo ao Correio da Manhã na íntegra:
http://www.franklinmartins.com.br/estacao_historia_artigo.php?titulo=a-entrevista-que-acabou-com-a-censura-a-imprensa-1945

Mas nem tudo são flores....

Licurgo Ramos da Costa, jornalista que trabalhou no DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) de 1939 a 1942, denunciou o Correio da Manhã de receber mensalmente verbas secretas do governo Vargas para publicar publicidade de cunho nacionalista.
O jornal, que passava por dificuldades, aceitava publicar anúncios somente da Caixa Econômica Federal e de órgãos da administração federal, além de editais e mensagens oficiais. Licurgo comprovou todas as suas denúncias com os recibos de pagamento, que estavam assinados e somavam o montante de 30 mil dólares.
A corrupção obscura de um jornal de história tão heróica nas revoluções nacionais causa um efeito decepcionante, e não há como negar: embora na época todos os meios de comunicação estivessem sobre o crivo da censura e da repressão, o dossiê feito sobre o caso mostra que o jornal não foi obrigado a aceitar o suborno e assim difundir a ideologia nacionalista, e sim pressionado. Lê-se isso no trecho do texto científico “Clientelismo, corrupção e publicidade - como sobreviviam as empresas jornalísticas no Rio de Janeiro dos anos 1950?” de Ana Paula Goulart Ribeiro:


“A distribuição da publicidade oficial era, obviamente, feita a partir de um critério político. Segundo Lacerda, Lourival Fontes teria entregado a Caio Miranda uma lista tríplice esclarecendo a lógica de funcionamento. A primeira lista continha o nome dos jornais que obrigatoriamente deviam receber a publicidade dos institutos: A Manhã, A Noite, Última Hora, O Radical, Voz Trabalhista, Diário Popular e Diário Trabalhista. A segunda lista continha os nomes dos periódicos a quem as verbas deveriam ser distribuídas conforme a sua atitude para com o governo: Jornal do Commercio, Correio da Manhã, O Jornal, Diário da Noite, O Globo e outros. E, finalmente, na terceira, os jornais que não deveriam receber publicidade de forma alguma: Tribuna da Imprensa, Diário de Notícias, Diário Carioca e Imprensa Popular.”


Dessa maneira, observa-se como o jornalismo, no século XX, tornou-se uma empresa essencialmente capitalista; e como Getúlio Vargas soube fazer uso disso pra manter-se no poder, através da propagação do populismo e nacionalismo exacerbado, típicos de seu governo manipulador. Ninguém escapou impune ao militar, nem mesmo os mais corajosos e transparentes, como o Correio da Manhã.


Extinção

O Correio da Manhã deixou de circular em 1974, mas pode-se datar sua morte de alguns anos antes: a noite de 13 de dezembro de 1968, quando, mal terminara a comunicação do AI-5 ao País pela televisão, agentes do Dops (Delegacia de Ordem Política e Social) atravessaram a rua e invadiram a sede do jornal, causando sua destruição através de uma explosão. O jornal também já enfrentava muitas dificuldades financeiras.
Thayla Ramos

16 de setembro de 2008

Censura à imprensa escrita – O Estadão

Os jornais impressos sofreram muito no período do Estado Novo. Matérias que pudessem ameaçar o Regime, com mensagens “nas estrelinhas”, protestando ou até mesmo deixando de destacar as qualidades de Getúlio Vargas eram censuradas pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), que por sua vez, controlava inteiramente a imprensa e emitia listas de assuntos proibidos. O suborno a jornalistas e donos empresas jornalísticas também eram bastante comuns na época, quem não enriqueceu acabou por fechar as portas de seus jornais, pois a recusa na colaboração com o órgão de repressão era como assinar a própria sentença de morte. Ou os jornais corriam esse risco, ou reproduziriam a mais nítida propaganda da ditadura.
Dos jornais brasileiros censurados nesse período, O Estado de S. Paulo (Estadão) foi um dos mais prejudicados, ficando por cinco anos “fora do ar”, isto porque seus titulares resolveram ignorar os números publicados entre 7 de abril de 1940 a 6 de dezembro de 1945. O motivo dos cinco anos “no vazio” foi a invasão da Polícia Militar no Jornal, em 23 de março de 1940, acusado de esconder armas, consequentemente entregue ao DIP. Depois de ter sido tomado pela polícia, o periódico só voltou a seus donos em dezembro de 1945, quando Júlio de Mesquita, Júlio de Mesquita Filho e Paulo Duarte retornaram do exílio. O Estadão voltou a ser publicado pelos seus legítimos donos em dezembro de 1945, circulando com o número 21.650, última edição antes da ocupação.
O Estadão sofreu dessa forma porque não publicava material enviado pelo DIP e não fazia propaganda do presidente nem de seus auxiliares. Com isto, o Jornal sofreu com problemas financeiros, já que não tinha apoio do governo nem da base aliada ao mesmo, consequentemente, foi obrigado a fazer um empréstimo na Caixa Econômica Federal para poder se manter. Contudo ainda sofria pressão, pois Vargas telefonava para o Jornal pra saber se as contas estavam em dia.
O Regime do Estado Novo foi uma espécie de nuvem negra que passou sobre o teto dos jornais brasileiros. A imprensa escrita foi nocauteada, pois sua tão famosa liberdade foi suprimida violentamente no período. A informação não tinha mais relevância, já que sua aura fora suprida pela propaganda ao Regime. A maioria se rendeu a pauta do Governo, já quem bateu de frente sofreu naquele momento, porém, teve seu prestígio reconhecido pela História, como aconteceu com O Estado de S. Paulo.

Juan Franscesco Piva
Fontes: http://www.estadao.com.br/historico/index.htm